30/05/2021

Quando eu era criança


Muitas das minhas lembranças são de quando viajávamos para a casa de nossos bisavós Maria e Graciano nas férias escolares; eles moravam em Pinhal, no interior de São Paulo. Minha avó paterna nos levava de ônibus. Andávamos de mãos dadas e ela carregava na cabeça um trouxa enorme de roupas, que encaixava num lindo birote feito no alto de sua cabeça. Na volta não era diferente, só que ao invés de roupas, trazia uma lata de leite em pó grandona (hoje em dia nem existe mais) cheia de paçoca fresquinha. Isso mesmo, paçoca feita em casa, com açúcar, farinha de rosca e amendoim torrado. O pilão tinha quase a nossa altura.

Nadávamos peladinhos no riacho, eu e meu irmão, como era bom. Na outra ponta vovó lavava roupas, batendo elas na pedra, enquanto sabão era feito numa fogueira ao lado.  Pegávamos girino nas mãos e não tínhamos medo. Criança é demais mesmo.

Lá a gente dormia as quatro horas da tarde, depois de já ter jantado. Era muito estranho obedecer esses horários, mas assim que anoitecia, por volta das dezoito horas, todos já deveriam estar em suas camas, porque o dia na roça começava as quatro. Difícil mesmo era conseguir dormir em cama de palha. Ela fazia barulho só de respirar. Todo mundo sabia quando a gente se levantava, dava para ouvir na casa toda.  

Como éramos da cidade, estranhávamos todos os sons vindo da mata e minha bisavó dizia que não podia sair senão Lobisomem, Saci Pererê e Curupira vinha pegar a gente. Uma vez voltávamos da fazenda vizinha e já era tarde, quase anoitecendo, o medo era tão grande que corríamos na estrada de terra como se tivéssemos asas nos pés. Meu irmão jurou de pé junto que viu mula sem cabeça.

Carinhosamente chamávamos a nossa bisavó de “vovó” e minha avó e “vó”, pois as duas tinham nome de Maria e assim ninguém confundia. A vovó, portanto, adorava ensinar coisas do interior pra nós. Deixava que brincássemos num paiol, havia uma montanha gigantesca de espigas de milho que ela e meu bisavó sozinhos haviam colhido. A noite moíamos um pouco do milho para dar as galinhas logo cedo. O problema é que ficávamos amiguinhos delas, ainda sem saber que no mesmo dia iriam para a panela. Uma cena que eu jamais esqueci, foi ver a vovó matando uma dessas galinhas. Com as duas mãos pegou a coitada da bichana que corria solta pelo terreno, esticou ela toda e em seguida bateu com força em seu próprio joelho dobrado, quebrando o pescoço da penosa. A tortura continuou, porque a galinha não morreu na hora, e foi enfiada num caldeirão de água fervente, feito para facilitar a retirada das penas. Foi servida no jantar, e ai de nós se nos recusássemos a comer. 

Já em São Paulo de novo, as férias continuavam. Eu adorava brincar de “Casinha” com minhas bonecas, mas para convencer meu irmãozinho a ser o papai, antes eu precisava brincar com ele de “Bandido e Mocinho”.  Eu sempre escolhia ser o bandido. Tínhamos uma priminha que sempre brincava conosco no quintal onde dividíamos nossas duas casas. Espalhávamos brinquedos por toda parte, era muito divertido. Passávamos horas arrumando quarto, sala, cozinha, decidindo como deveria ser a nossa casa, mas do nada ela levantava e ia embora. Toda vez era eu que guardava tudo sozinha.

Eu me lembro também que cai na calçada, quando voltava da venda com um litro de leite nas mãos. Naquele tempo não tinha tanta frescura, os pais confiavam missões como esta aos filhos. Mas eu avoada como era, tropecei e me esborrachei no chão com o litro em uma das mãos. Levei diversos pontos no cotovelo, tenho a cicatriz até hoje, mas não fomos ao hospital, o farmacêutico mesmo fez isso.

Sempre tive medo de bicho papão e do meu pai também. O bicho eu até aprendi enfrentar, já o velho não muito bem. Raras eram as vezes que havia diálogo, ele só sabia mandar, sem conversa. Do tipo autoritário, achava que nós não tínhamos direito a ter opinião, só ele é que sempre tinha razão. Quando eu cresci, ficou ainda pior, tinha ciúmes, era super protetor. Mas em meio há muitas lembranças tristes, das surras com chinelos e cintas, eu me lembro que ele adorava pentear meus longos cabelos negros, me chamava de “Índia”. 

Muitas outras lembranças vieram depois que eu comecei a escrever sobre elas, como quando eu passava o fim de semana na casa da minha madrinha e ela fazia pizinhas no forno usando bolachas de água e sal. De quando mamãe fazia lindas roupas pra mim, usando sobras de tecidos das suas freguesas. Adorava ser costureira e graças a ela é que muitas vezes tivemos o que comer em casa.


do livro em andamento Pé na Roça de Catia Garcia

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