Estrelinhas do Cursor

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23/05/2021

Conto de Halloween: Macabra comemoração


A tarde caia e já temia pela sua própria sombra, que haveria de encontrá-lo, mesmo que tentasse inutilmente se esconder. O medo andava lado a lado daquele ser.

Quando em vida não havia quem o pudesse entender e agora era alma desassossegada, cuja dor falecida ainda trazia ilusões d'outrora.

Só desejava ser aceito, mas por não ser igual aos demais era excluído e maltratado. Tinha vezes que até tentava interagir, fazer amigos, mas o seu grotesco semblante assustava.

Não havia culpa de ser diferente, era assim que tinha nascido. Sua pele pálida sustentava olhos esbugalhados. O seu corpo lânguido intimidava. Não tinha boca, portanto não lhe era permitido argumentar e o seu olhar penetrante apenas tinha a intenção de demonstrar o que sentia.

Durante os dias vivia trancado, evitava mostrar-se, sabendo que haveria alvoroço e acusações. Como tinha pernas muito longas, mesmo que o seu andar fosse vagaroso, deixava qualquer um para traz. Como suas mãos e dedos também eram grandes, não conseguia cumprimentar como faziam, com um simples aperto de mãos. Mas em todo entardecer ele tomava coragem e subia a colina, era hora em que todos já haviam se recolhido em suas casas. De lá podia ver parte de suas vidas e criava fantasias, imaginava como seria poder conversar, ter a quem contar suas ideias. Sentava-se por horas e escrevia em seu diário de lamentações.

Passara a vida solitário, ninguém dele se aproximava. Nas noites ficava acordado, não fora feito para dormir. 

Nunca soubera quem eram seus pais, pois fora abandonado, criado por alguém que só o alimentava, nem nome tinha e quando falavam dele, o chamavam por aberração, coisa ruim, entre outros títulos. Não soube o que era o amor, nem pudera estudar, pois as crianças choravam quando ele aparecida na porta da escola. 

A sua vida era um pesadelo constante, ele não tinha um propósito e no labirinto de sua insegurança finalmente desistiu, atirando-se do penhasco. 

O abismo da colina hoje é conhecido como a Queda do Feioso, virando inclusive ponto turístico. Pessoas de toda parte sobem a montanha só para chegarem no topo e fotografarem-se, olhando para baixo com curiosidade.

A sua desgraça virou piada e considerada como atração. Continuam visitando o local da sua morte, sem ao menos parar um segundo sequer para pensar que ele talvez já se sentisse morto em vida.

Principalmente na época de festas de Halloween, do além pode-se ouvir o que parecem gargalhadas. Não se sabe de onde vem o som, mas imagina-se que seja dele mesmo, feliz por finalmente ser alguém a quem muitos procuram, sentindo-se inclusive felicitado, como se entendesse que todo ano há comemoração de seu desaniversário e provavelmente, se depender dele, irá durar por toda eternidade.

Do seu diário: " Se houvesse interesse em conhecer mais de mim, saberiam que sou como eles, que tenho sonhos, que também preciso de abraços; quem sabe um dia sintam minha falta..."


Música Keep Going - Myuu (Nicolas Gasparini)

https://www.youtube.com/watch?v=HgeJDSUchWY




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